SOS QUÍMICA - O SITE DO PROFESSOR SAUL SANTANA.
VOCÊ SABIA?
Transgênicos,
Os grãos que assustam
Todo grande avanço científico, quando é bom, parece mágico num primeiro
momento. Passado algum tempo, acaba sendo incorporado como prática
rotineira, e ninguém consegue pensar como seria viver sem ele. Em meados
do século XIX, a mortalidade entre as mulheres grávidas era altíssima,
simplesmente porque os médicos mexiam em cadáveres e depois realizavam os
partos – sem lavar as mãos. A assepsia com uma solução de cloreto de cal
reduziu a mortalidade das parturientes a menos de um décimo do que era
antes. Milagre! Mais ou menos na mesma época, surgiu a anestesia, dando às
pessoas o direito de ser tratadas sem sentir dor. Uma bênção. Agora
imagine a vida sem assepsia ou anestesia. No capítulo dos grandes avanços,
as experiências genéticas envolvendo a fauna e a flora parecem ser aquilo
em que mais perto a ciência chegou da alquimia. É mágica pura. Os
pesquisadores criam animais e plantas com um pequeno porcentual de
diferença em relação aos que existem na natureza – e, como se pode
acompanhar pela repercussão dessas intervenções, a sociedade ainda observa
os experimentos com espanto e preocupação. Registram-se manifestações
contra as modificações genéticas nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e
até na pobre África, onde os transgênicos poderiam em tese ajudar a
combater a fome. Recentemente, a Zâmbia recusou um carregamento de milho
transgênico doado pelos Estados Unidos.
Os
transgênicos ocuparam espaço especial também no Brasil. Houve manifestação
de ativistas do Greenpeace em supermercados, um governador de Estado
inventou uma blitz caça-manchetes para identificar carregamentos
transgênicos e Brasília se viu envolvida em mais uma rodada de discussões
para ver se autoriza ou proíbe a produção de alimentos modificados
geneticamente no país. Nos últimos sete anos, os transgênicos vêm sendo
cultivados em mais de quinze países. O Brasil é um deles. Planta-se soja
modificada no Rio Grande do Sul. A maior parte do mundo já tomou uma
posição a respeito dos alimentos geneticamente modificados. França,
Inglaterra e Alemanha autorizam experiências genéticas, mas proíbem o
cultivo comercial. Canadá, China e Argentina usam os transgênicos
livremente. São transgênicos um terço das plantações de soja e milho
americanos e metade do algodão australiano. O Brasil vai na contramão e se
mantém em impávido silêncio. Mesmo sendo o país o segundo maior produtor
mundial de soja, o governo não diz se plantar transgênicos é legal ou
ilegal. Cansados de esperar, os agricultores gaúchos decidiram cuidar da
vida. Atravessaram a fronteira com a Argentina e voltaram de lá com
sementes transgênicas. Resultado: calcula-se que 80% da soja plantada no
Estado já seja geneticamente modificada. A realidade nacional ficou
exótica. Os fazendeiros plantam e colhem a safra antes mesmo de haver
legislação definitiva. Tornaram-se a versão rural dos sacoleiros, que
contrariam as leis de forma descarada.
O governo Lula encenou um espetáculo lamentável. Os ministros fizeram
reuniões e, ao fim delas, ficou acertado que o governo vai mandar para o
Congresso Nacional um projeto de lei cujo teor é de assustar. O registro
de um produto transgênico só será concedido se passar por cinco instâncias
governamentais – e for aprovado em todas. Trata-se de um pesadelo
kafkiano. A proposta acabou assim para não melindrar a ministra Marina
Silva, do Meio Ambiente, que até então não venceu uma única batalha.
Pudera. Marina quer simplesmente banir os transgênicos do mapa e, para
atingir esse objetivo, se cercou de aliados ecoxiitas no ministério. Uma
de suas armas nessa guerra é Marijane Lisboa, secretária de Qualidade
Ambiental nos Assentamentos Humanos, encarregada do governo de discutir a
transgenia em Brasília. Marijane tem folha corrida na área. Trabalhou por
mais de dez anos no Greenpeace, incumbida das campanhas contra os
transgênicos. Que independência se deve esperar de alguém com esse
currículo? A ministra Marina Silva (com a assessoria de Marijane) é voz
isolada no combate aos transgênicos. Conta com o apoio apenas do ministro
Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário, outro inimigo declarado desse
e de outros avanços tecnológicos. A chamada "alta cúpula" petista, no
entanto, vê a semente sem a mesma paixão da dupla, e a tendência de José
Dirceu e Antonio Palocci é apoiar uma faxina racional do texto no
Congresso Nacional.
Poucos temas são discutidos num clima de tanta paixão e irracionalidade quanto a transgenia. Compreende-se. Os transgênicos representam uma ruptura cultural sem precedentes na história da humanidade, e um desafio à crença segundo a qual o homem pode pagar caro se mexer naquilo que Deus fez. O acerto de contas viria em forma de uma vingança da natureza, como aconteceu no caso da vaca louca. Nesse episódio, esses animais herbívoros foram artificialmente alimentados com rações com carne e adoeceram, provocando uma invasão de carne contaminada nos açougues europeus. No caso dos transgênicos, as pessoas, mesmo sem ter idéia precisa do que significam essas mutações, adotam uma postura contra ou a favor, em geral sem grandes reflexões. De um lado concentram-se os que tendem a aprovar os avanços científicos e os benefícios que trazem para a humanidade e para os fabricantes dos novos produtos que saem dos laboratórios. De outro, estão os que reprovam, principalmente ambientalistas e, de maneira geral, militantes de partidos de esquerda. Não importa o que digam os cientistas independentes a favor dos transgênicos, essa ala já decidiu que eles são um malefício – e acabou.
A ciência já falhou inúmeras vezes. A própria produção de animais clonados tem resultado em espécimes com defeitos e filhotes que já nascem com traços de senilidade. Mas a pesquisa científica, ao criar e lançar produtos para consumo da população, cerca-se de um rigor jamais visto. Os testes com alimentos modificados se transformam em relatórios submetidos à apreciação dos acionistas dos laboratórios, de comissões governamentais de saúde e ONGs. Nos Estados Unidos, há três órgãos federais regulamentando a produção de safras e alimentos geneticamente modificados. Entre eles está o FDA, departamento que analisa os níveis de toxicidade e potencial alergênico dos grãos para só então autorizá-los a entrar no mercado. Segue-se para os transgênicos o mesmo processo de verificação usado na aprovação de remédios.
A oposição aos transgênicos não se limita, no entanto, a movimentos preocupados com a saúde das pessoas e o equilíbrio do meio ambiente. Ela é engrossada por opositores ideológicos, para os quais as grandes empresas multinacionais que produzem transgênicos passariam a ter controle, através do domínio dessa técnica, sobre a agricultura dos países pobres. A relação comercial cotidiana é apresentada como uma transação que reúne musculosas companhias fornecedoras de semente transgênica, todas estrangeiras, e fracotes agricultores de países em desenvolvimento, como o Brasil. No site do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, lê-se o seguinte: "A patente genética, dominada por poucas nações, é um método mirabolante de controlar a agricultura mundial, ditando quem pode ter lucros e quem deve ficar com os prejuízos, controlar a área plantada e em quais países. Uma ditadura genética sem retorno". Esse trecho faz parte do texto "Um futuro mutante e desconhecido", disponível no endereço http://www.mst.org.br/. Diferentemente do que pode parecer aos críticos ideológicos das sementes genéticas, os agricultores há muito trabalham em parceria com grandes companhias estrangeiras. Por meio dessas parcerias, compram maquinários, implementos agrícolas e até aviões, no caso das fazendas maiores. Desde o fim da I Guerra, os produtores rurais de países como o Brasil se relacionam com grandes fabricantes de plantadeiras, tratores e colheitadeiras, setor igualmente dominado por empresas multinacionais. Outra parceria vital do campo com as multinacionais se dá na compra dos pesticidas, em que também operam companhias internacionais gigantescas.
A chegada dos transgênicos, portanto, não muda paradigma algum nessa área. As multinacionais, que já dominavam o maquinário e a produção de defensivos agrícolas, também estão na linha de frente da pesquisa biotecnológica, da mesma forma que são pioneiras na indústria automobilística, farmacêutica, naval ou aeronáutica. Existem três grandes companhias explorando a produção comercial de sementes transgênicas. São três gigantes, uma européia, a Syngenta, e duas americanas, a DuPont e a Monsanto. Algumas dessas empresas atuam em vários ramos. A DuPont, por exemplo, surgiu há 200 anos comercializando pólvora negra e hoje vende abrasivos, inseticidas, fios, polímeros, o kevlar, usado na construção de aeronaves, e o teflon, que a dona-de-casa tanto conhece. Fatura 75 bilhões de reais por ano, emprega 79.000 pessoas e atua em setenta países. No Brasil, a empresa-símbolo da transgenia é a Monsanto. Ninguém fala das demais. O motivo é que a soja é o único produto transgênico comercializado no Brasil, e a Monsanto detém a patente da única variedade de soja modificada existente no mercado, a Roundup Ready, um marco por ter sido o primeiro transgênico cultivado em larga escala no mundo. Fundada nos Estados Unidos no começo do século passado, a Monsanto fatura 15 bilhões de reais por ano e investe 10% de seu faturamento em pesquisa científica.
Investir em biotecnologia tem-se revelado um bom negócio para as companhias. Um cálculo feito pela Universidade de Iowa, nos EUA, chegou à conclusão de que, em 1999, o plantio de soja transgênica resultou em um excedente de 2,7 bilhões de reais em toda a cadeia. A maior parte desse dinheiro, 55%, ficou com a Monsanto; os outros 45% foram distribuídos pelos milhares de fazendeiros que plantaram as sementes modificadas. Apesar das críticas do MST, nenhum produtor rural é obrigado por quem quer que seja a plantar transgênicos. Compra grão modificado quem quer. Quem não quer compra as sementes comuns. O atrativo é o aumento de lucratividade. Os estudos mostram que, em troca de royalties, as empresas oferecem aos fazendeiros lucro que pode ser até 25% maior do que aquele que obteriam se cultivassem a lavoura com sementes comuns. O motivo é que as lavouras transgênicas exigem menos agrotóxicos e são mais fáceis de tratar. A vantagem da transgenia, no caso da soja já comercializada com essa característica, é que ela é resistente à aplicação de um herbicida para exterminar as ervas daninhas. A plantação torna-se, assim, mais produtiva para o agricultor.
Os fabricantes de transgênicos gostam de apontar a chegada do grão modificado geneticamente como uma nova "revolução verde", o salto na produção agrícola ocorrido na década de 1960 que livrou o planeta de uma tragédia provocada pela fome. Naquele tempo, dezenas de milhões de indianos, paquistaneses e chineses corriam sério risco de morrer de desnutrição e foram salvos por uma combinação de herbicidas, adubos e sementes selecionadas. Do ponto de vista científico, a transgenia impressiona, pois os cientistas encontraram uma forma de alterar a estrutura molecular das plantas e de enriquecê-las com genes de outras plantas ou até mesmo de bactérias em busca de um alimento com maior concentração de nutrientes ou mais resistente à ação das pragas. Pesquisadores indianos chegaram a um tipo de batata enriquecida com proteína. Nos Estados Unidos testam-se misturas de vegetais que podem, além de alimentar, combater doenças como hepatite B, cólera e diabetes. Como os produtos são desenvolvidos em laboratório, onde todos usam avental, é como se estivesse em curso uma "revolução branca".
No aspecto da ciência, os transgênicos representam uma etapa mais sofisticada que a da revolução verde. Mas, no que diz respeito aos aspectos econômicos e sociais, há mais promessa que realização. Com a introdução dos defensivos agrícolas e adubos químicos no começo dos anos 60, a produção mundial de comida triplicou. Em alguns casos, bem mais do que isso. Em 1940, os EUA produziam 56 milhões de toneladas de milho em 32 milhões de hectares. Segundo registros de 1999, a área semeada havia sido reduzida à metade, mas a produção ficou oito vezes maior. No caso dos transgênicos, os ganhos econômicos não estão crescendo nessa escala gigantesca. Na Europa, o óleo produzido com soja transgênica está um pouco mais barato que o da versão não transgênica. Ainda assim, não é possível afirmar se o preço menor se deve aos ganhos de produtividade ligados à transgenia ou a uma política de preços favoráveis para tentar contornar uma eventual resistência do consumidor. O que ajuda a decidir a questão é o interesse manifestado por quem entende do assunto – os agricultores. Eles estão procurando febrilmente as sementes transgênicas para plantar, sinal de que têm com elas maior produtividade. Quando são apresentados ao fato de que ainda não revolucionaram o planeta, os fabricantes de transgênicos dizem que as sementes modificadas ainda são novas demais. Prometem que o grande impacto na produção virá com o tempo.
Biossegurança e
Produtos Transgênicos
O
avanço da pesquisa biotecnológica promove cada vez mais a mobilização da
sociedade, dos setores econômicos e dos poderes públicos com respeito ao
estímulo, à absorção e ao controle dos resultados dessas pesquisas.
Observam-se reações positivas com respeito aos benefícios trazidos pela
biotecnologia e reações negativas – naturais quando se trata de qualquer
conhecimento relativamente novo – quanto aos riscos tecnológicos. A
sociedade, por meio de seus representantes e órgãos reguladores - responde
com o estabelecimento de controle técnico mais detalhado no campo da
biossegurança. A biossegurança visa precisamente ao estabelecimento de
mecanismos de proteção para o uso da biotecnologia moderna, tanto no que
tange a experimentos laboratoriais, como a testes de campo que possam
implicar risco biológico, provocando impactos ambientais indesejáveis ou
conseqüências negativas para a saúde humana.
A
aprovação, por exemplo, de um plantio em escala comercial de uma nova
linhagem transgênica é resultado de muitos anos de trabalho de
laboratório. Uma vez que uma planta potencialmente útil tenha sido
desenvolvida, um programa de testes de campo é essencial para avaliar seu
desempenho, antes de sua comercialização. Todo esse processo, desde a
pesquisa até o desenvolvimento comercial de um novo produto biotecnológico,
deve ser realizado dentro de normas e padrões de biossegurança. Depende do
sistema regulatório de cada país o controle do desenvolvimento de produtos
e processos resultantes da biotecnologia moderna, área em que o Brasil vem
realizando enormes esforços em termos de formação de recursos humanos,
infra-estrutura de pesquisa e investimentos financeiros.
Alguns
dos aspectos mais relevantes dessa discussão dizem respeito às evidências
científicas – ou a ausência – de eventuais impactos dos produtos
transgênicos para a saúde humana e animal e para o meio ambiente – temas
diretamente afeto à biossegurança. Desde a década de 1970, vem sendo
delineadas essas normas de segurança biológica.
Com
a disseminação do uso da biotecnologia moderna no Brasil, o Congresso
Nacional aprovou em 1995 a Lei nº 8.974/95, após cinco anos de tramitação
do projeto de lei de iniciativa do então Senador Marco Maciel. A chamada
Lei de Biossegurança criou a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio)
e regulamentou o art. 225 da Constituição Federal, com vistas à
preservação do meio ambiente e da biodiversidade e a saúde da população,
de forma a assegurar a adequação das pesquisas envolvendo a biotecnologia
moderna e a regular o uso da engenharia genética e a liberação no meio
ambiente de organismos modificados por essas técnicas.
Operacionalmente
vinculada ao MCT, a CTNBio iniciou suas atividades em junho de 1996. É
composta por 18 membros titulares e seus suplentes, entre os quais
especialistas indicados pela comunidade acadêmica, com notório saber
científico nas áreas humana, animal, vegetal e ambiental, obrigatoriamente
com doutorado, além de representantes dos Ministérios da Ciência e
Tecnologia, da Saúde, da Agricultura, do Meio Ambiente, da Educação e das
Relações Exteriores. Têm também assento na Comissão representantes de
órgãos de defesa do consumidor, de proteção à saúde do trabalhador e do
setor empresarial da biotecnologia. As funções desenvolvidas pelos membros
são consideradas de alta relevância e honoríficas, não ensejando qualquer
remuneração. Seu mandato é de três anos, permitida a recondução apenas uma
vez.
A
Comissão reúne-se mensalmente, desde a sua criação em 1996, para
certificar a segurança de laboratórios e experimentos relativos à
liberação de organismos geneticamente modificados no meio ambiente e para
julgar pedidos de experimentos e de plantios comerciais de produtos que
contenham OGMs.
Foram
elaboradas pela CTNBio e publicadas 19 Instruções Normativas que
regulamentam os mais diversos aspectos da biotecnologia moderna no País.
Atualmente, existem cerca de 130 instituições públicas e privadas
credenciadas, através da concessão de Certificado de Qualidade em
Biossegurança (CQB), para desenvolver atividades com organismos
transgênicos, das quais 20 efetivamente conduzem regularmente liberações
planejadas no meio ambiente. A Comissão já autorizou e vem acompanhando
cerca de 800 processos, a grande maioria de plantios agrícolas em escala
experimental, e apenas um em escala comercial, a soja "Roudup Ready".
A
CTNBio analisa, caso a caso, as solicitações que lhe são encaminhadas,
jamais emitindo pareceres genéricos sobre, por exemplo "soja transgênica"
ou "milho transgênico" em geral, mas unicamente sobre determinada linhagem
de soja modificada para expressar determinadas características. Cabe ao
solicitante o ônus de demonstrar a biossegurança do OGM, fornecendo todos
os dados necessários para a avaliação, podendo a Comissão exigir
informações e testes adicionais. A Instrução Normativa nº 3, de 1996,
estabelece minuciosamente as normas aplicáveis à liberação de OGMs no meio
ambiente e os critérios de avaliação de risco para a saúde humana.
É
exigência legal para realização de experimentos com OGMs que a instituição
interessada disponha da autorização específica da CTNBio para a realização
do experimento e de Certificado de Qualidade em Biossegurança, ambos
publicados no Diário Oficial da União, além disso deve constituir Comissão
Interna de Biossegurança, de acordo com os critérios das Instruções
Normativas da CTNBio. Cabe ao solicitante o ônus de demonstrar a
biossegurança do OGM, fornecendo todos os dados necessários para a
avaliação da CTNBio. Para realização de experimentos com OGMs é necessário
que a instituição disponha dessa autorização da CTNBio, de Certificado de
Qualidade em Biossegurança, ambos publicados no Diário Oficial da União, e
que constitua Comissão Interna de Biossegurança, de acordo com as
Instruções Normativas da CTNBio.
A
elaboração de parecer técnico prévio conclusivo pela CTNBio pelos
procedimentos estabelecidos pelas Instruções Normativas nº3, de 13/11/96,
e nº10, de 22/02/98. De acordo com esses procedimentos, o pedido de
liberação de OGMs no meio ambiente é distribuído às subcomissões setoriais
específicas das áreas da saúde, vegetal, animal e ambiental, que emitem
pareceres técnicos, determinando os critérios e recomendações para a
liberação ou indeferindo-a.
Os
pedido de experimentos de campo com OGMs e de liberação em escala
comercial de produtos transgênicos dão entrada na CTNBio e são
distribuídos às subcomissões setoriais específicas da saúde, vegetal,
animal e ambiental, presididas pelos representantes dos respectivos
Ministérios, que emitem pareceres técnicos, determinando os critérios e
condições para a liberação ou indeferindo-a. O parecer técnico conclusivo
emitido pela CTNBio contempla necessariamente os seguintes aspectos da
segurança do OGM: a) riscos ao meio ambiente; b) riscos do ponto de vista
agrícola e animal; e c) riscos para a saúde humana e para produção de
alimentos com vistas ao consumo humano. Para sua elaboração podem ser
ouvidos consultores ad-hoc e considerados os resultados de exames
realizados em outros países.
A
despeito desses esforços, vinham ocorrendo sérios questionamentos,
inclusive de natureza judicial, quanto à existência legal e as
competências da CTNBio. Assim a publicação da
Medida Provisória nº 2.137, em 28 de
dezembro último, resultou da
percepção de que era necessário fortalecer a CTNBio e tornar mais claros
as interfaces e os procedimentos da Comissão e dos Ministérios que a
integram, frente a suas importantes responsabilidades no cenário nacional.
A CTNBio inicia uma nova etapa
em sua trajetória, como órgão técnico
normativo, consultivo e de assessoramento
ao Governo Federal face à pesquisa com biotecnologia moderna no País.
Assinada
pelo Presidente da República e por quatro Ministros de Estado – Ronaldo
Sardenberg, da Ciência e Tecnologia, Pratini de Moraes, da
Agricultura, José Serra, da Saúde e José Sarney Filho, do Meio Ambiente, a
Medida Provisória nº 2.137
confirmou, de maneira inequívoca, não apenas a opção do Governo Federal
pelo modelo regulatório integrado de segurança de organismos geneticamente
modificados, mas que as atividades desenvolvidas pela CTNBio expressam a
política federal nessa área.
Por
um lado, tendo por base a experiência adquirida pela CTNBio ao longo dos
seus quase cinco anos de funcionamento, a MP estabeleceu novos
compromissos, com vistas a sanar as dificuldades constatadas; por outro
lado, confirmou e tornou mais explícitos procedimentos administrativos e
princípios éticos já rotineiros da Comissão, introduzidos que foram por
meio de Instruções Normativas ou por rotinas informais, mas que trazidos
para o texto da lei ganham maior ênfase e clareza , tais como:
A
Comissão também passará a dedicar atenção especial a outras tarefas
igualmente importantes: a proposição ao MCT de uma Política Nacional de
Biossegurança; a elaboração de um Código de Ética das Manipulações
Genéticas, além da realização de pesquisas e estudos científicos no campo
da biossegurança.
Além
disso, dentro das respectivas competências e mediante o parecer favorável
da CTNBio, caberá aos órgãos de fiscalização autorizar importação de OGMs
ou derivados, autorizar o funcionamento de laboratório, instituição ou
empresa que desenvolverá atividades relacionadas com OGM, bem como
autorizar experimentos de campo com OGM e liberação em escala comercial de
produto contendo OGM. Nesse sentido, a MP 2137/200 é clara:
As
ações que o Governo brasileiro se propõe a promover no campo da
biotecnologia e da biossegurança estão alicerçadas no entendimento de que
a sociedade brasileira não pode prescindir do desenvolvimento e uso desse
conhecimento em benefício do homem, do meio ambiente e da própria
sociedade. Nesse contexto, quando a biotecnologia torna-se cada vez mais
um instrumento para a solução de problemas relacionados, por exemplo, com
a saúde, a alimentação e o meio ambiente, é fundamental que a legislação
brasileira de biossegurança seja adequadamente implementada e que a CTNBio
continue realizar a missão para a qual foi criada.
Por
outro lado, a despeito de não caber legalmente à CTNBio a consideração de
critérios econômicos, mas exclusivamente técnico-científicos sobre a
biossegurança de OGMs, é importante que outros segmentos do Governo e da
sociedade considerem e avaliem as questões comerciais. Não se pode
desconsiderar que muitos países receiam o uso da biossegurança como
prática protecionista e como barreira não-tarifária no contexto, por
exemplo, da competição por mercados no comércio internacional de produtos
agrícolas.
Ao
longo dos últimos anos temos tido a oportunidade de presenciar um debate
acirrado acerca da conveniência ou não de permitirmos a entrada – e o
desenvolvimento – de produtos transgênicos e dessa tecnologia no Brasil. É
preciso ter discernimento quanto às questões científicas, as questões
econômicas e as questões legais, de modo a não permitir que os aspectos
políticos e econômicos venham a obscurecer ou deturpar aspectos
científicos. Para isso, a atuação da Comissão Técnica Nacional de
Biossegurança tem-se pautado na transparência de seus procedimentos, na
competência de seus cientistas, na correção e a seriedade ética com que as
questões de segurança científicas são abordadas.
O
uso de organismos transgênicos tem o potencial de oferecer benefícios
reais na agricultura, na qualidade da alimentação e na saúde, entre outros
setores. Há, é verdade, incertezas acerca de diversos aspectos do uso de
OGMs. Porém, a pesquisa contínua e a ampla divulgação de seus resultados
são essenciais para o adequado tratamento dessas incertezas, para que os
riscos sejam devidamente avaliados e controlados e a fim de que o
potencial das novas tecnologias torne-se claro e acessível para a
sociedade. É preciso respeitar as legítimas preocupações do público. A
confiança da sociedade, baseada na apreciação da evidência científica e na
adequação das medidas regulatórias, é fundamental para que os alimentos e
os medicamentos transgênicos efetivamente contribuam para atender às
necessidades da população.
Somente
com uma postura clara e firme de instituições e de profissionais que estão
a serviço da ciência e da tecnologia, é que ampliaremos a consciência das
possibilidades do Brasil em termos de ciência e tecnologia e que
asseguraremos o apoio e a perenidade dos esforços nacionais nessa área. Do
contrário, veremos aumentar não apenas fosso que separa países em
desenvolvimento dos países desenvolvidos, mas também o hiato entre a
ciência, que se torna cada vez mais complexa, e a capacidade individual de
entendê-la. A ciência é capaz de, por um lado, trazer o novo e revelar o
desconhecido e, por outro, é o instrumento adequado para a sociedade
exercer o controle de seu uso e de suas aplicações. A moderna
biotecnologia é fruto do avanço da ciência; seu controle dentro dos
limites eticamente aceitáveis é resultado do debate aberto e democrático.
Transgênicos - os dois lados da moeda
Esqueça a polêmica entre "o bem e o mal". Cada caso é um caso quando se fala em organismos modificados
Os transgênicos tomaram o Brasil de assalto. A sociedade testemunha hoje uma discussão incentivada pela produção de soja geneticamente modificada e polarizada entre argumentos contrários e favoráveis.
O que pouca gente sabe é que os transgênicos fazem parte da nossa vida desde a década de 1970, quando foi criada a técnica do DNA recombinante e a engenharia genética produziu um filhote comercial: insulina humana feita por bactérias modificadas, com menor taxa de rejeição entre os diabéticos.
Da medicina, a biotecnologia passou para a agricultura, onde proliferou. Segundo o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações de Agrobiotecnologia, em 1996 havia 1,6 milhão de hectares de transgênicos em todo o mundo; em 2002, o número pulou para 58,7 milhões de hectares.
O campo também viu florescer a polêmica sobre a manipulação genética. De um lado, seus defensores pregam que os organismos geneticamente modificados (OGMs) pedem menos agrotóxicos - como a soja Roundup Ready, da Monsanto - e podem resolver problemas nutricionais - como o "arroz dourado", que produz vitamina A, cuja deficiência causa cegueira e deixa o corpo vulnerável a infecções. Do outro lado, críticos pedem mais precaução e colocam em xeque os critérios que atestam sua segurança para a saúde e o meio ambiente.
Há muita paixão nessa conversa", alerta a bióloga Maria Helena Goldman, da USP de Ribeirão Preto. "Nada é só bom ou só ruim. E os organismos modificados não podem ser generalizados, porque cada caso é um caso", declara.
Conheça nas páginas seguintes os argumentos usados pelos dois lados e o que a ciência já sabe sobre os benefícios e os riscos dos transgênicos.
O QUE SÃO TRANSGÊNICOS?
São plantas criadas em laboratório com técnicas da engenharia genética que permitem "cortar e colar" genes de um organismo para outro, mudando a forma do organismo e manipulando sua estrutura natural a fim de obter características específicas. Não há limite para esta técnica; por exemplo, é possível criar combinações nunca imaginadas como animais com plantas e bactérias.
Você sabia que os transgênicos...
O que são transgênicos
São plantas criadas em
laboratório com técnicas da engenharia genética que permitem "cortar e
colar" genes de um organismo para outro, mudando a forma do organismo e
manipulando sua estrutura natural a fim de obter características
específicas. Não há limite para esta técnica; por exemplo, é possível
criar combinações nunca imaginadas como animais com plantas e bactérias.
Perguntas e Respostas Sobre
Transgênicos
O
que é a engenharia genética aplicada aos alimentos?
O
que a engenharia genética está fazendo?
Quais são os impactos da engenharia genética?
Riscos para a saúde
Quem
disse que é seguro?
Quem
ganha?
O que é a
engenharia genética aplicada aos alimentos?
"Esta é uma tecnologia imperfeita que traz o perigo....O mais
preocupante é a impresibilidade dos seus resultados"
A engenharia genética permite que cientistas usem os organismos vivos
como matéria prima para mudar as formas de vida já existentes e criar
novas.
Um gene é um segmento de DNA que, combinado com outros genes, determina a
composição das células. Um gene possui uma composição química que vai
determinar o seu comportamento. Como isso é passado de geração em geração,
a descendência herda estes traços de seus pais. Desenvolvendo-se
constantemente, os genes permitem que o organismo se adapte ao ambiente.
Este é o processo da evolução.
A engenharia genética utiliza enzimas para quebrar a cadeia e DNA em
determinados lugares, inserindo segmentos de outros organismos e
costurando a seqüência novamente. Os cientistas podem "cortar e colar"
genes de um organismo para outro, mudando a forma do organismo e
manipulando sua biologia natural a fim de obter características
específicas (por exemplo, determinados genes podem ser inseridos numa
planta para que esta produza toxinas contra pestes). Este método é muito
diferente do que ocorre naturalmente com o desenvolvimento dos genes. O
lugar em que o gene é inserido não pode ser controlado completamente, o
que pode causar resultados inesperados uma vez que os genes de outras
partes do organismo podem ser afetados.
O aumento da preocupação com a ética e os riscos envolvendo a engenharia
genética são muitos. Primeiro porque os genes são transferidos entre
espécies que não se relacionam, como genes de animais em vegetais, de
bactérias em plantas e até de humanos em animais. Segundo porque a
engenharia genética não respeita as fronteiras da natureza fronteiras que
existem para proteger a singularidade de cada espécie e assegurar a
integridade genética das futuras gerações.
Quanto mais os genes são isolados de suas fontes naturais, maior é o
controle dos cientistas sobre a vida. Eles podem criar forma de vida
próprios (animais, plantas, árvores e alimentos), que jamais ocorreriam
naturalmente. Na verdade, a industria está tentando dirigir o curso da
evolução por si mesma.
O que a engenharia genética está fazendo?
A maioria dos alimentos mais importantes do mundo são o grande alvo da
engenharia genética. Muitas variedades já foram criadas em laboratório e
outras estão em desenvolvimento.
O cultivo irrestrito e o marketing de certas variedades de tomate , soja,
algodão, milho, canola e batata já foram permitidos nos EUA. O plantio
comercial intensivo também é feito na Argentina, Canada e China. Na
Europa, a autorização para comercialização foi dada para fumo, soja,
canola, milho e chicória, mas apenas o milho é plantado em escala
comercial (na França, Espanha e Alemanha, em pequena escala, pela primeira
vez em 1998).
Molho de tomate transgênico já é vendido no Reino Unido e o milho e a soja
transgênica já são importados dos EUA para serem introduzidos em alimentos
processados e na alimentação animal. De fato, estima-se que
aproximadamente 60% dos alimentos processados contenham algum derivado de
soja transgênica e que 50% tenham ingredientes de milho transgênico. Porém
, como a maioria destes produtos não estão rotulados, é impossível saber o
quanto de alimentos transgênicos está presente na nossa mesa. No Canada e
nos EUA, não há qualquer tipo de rotulagem destes alimentos. Na Austrália
e Japão a legislação ainda está sendo implementada. Em grande parte do
mundo os governos nem sequer são notificados se o milho ou a soja que eles
importam dos EUA são produtos de um cultivo transgênico ou não.
Além dos transgênicos já comercializados, algumas variedades aguardam
autorização:
- salmão, truta e arroz, que contem um gene humano introduzido;
- batatas com um gene de galinha;
- pepino e tomates com genes de vírus e bactérias.
Até o momento, há uma grande oposição à contaminação genética dos
alimentos. São consumidores, distribuidores e produtores de alimentos que
exigem comida "de verdade", sem ingredientes transgênicos. Apesar da
preocupação, a introdução descontrolada de transgênicos continua a crescer
em níveis alarmantes. A menos que a oposição se sustente e ganhe força nos
próximos anos, um aumento drástico destes alimentos pode ocorrer, e a
opção de evita-los poderá ficar cada vez mais difícil.
Quais são os impactos da engenharia genética?
Como nunca nenhum gene funcionou isolado, sempre haverá um efeito
inesperado e imprevisível de um gene estrangeiro introduzido em um outro
organismo.
Enquanto a engenharia genética continua a criar novas formas de vida
que se desenvolveriam naturalmente, ela se recusa a reconhecer o quão
sérios são seus riscos potenciais.
Riscos para a saúde
Os cientistas já introduziram genes de bactérias, escorpião e águaviva em
alimentos cultiváveis. Os testes de segurança sobre estes novos alimentos
contendo genes estrangeiros - e as regulações para sua introdução - até
agora têm sido extremamente inadequados.
Os riscos são muito reais. Alguns exemplos:
Quem disse que é seguro?
Embora a engenharia genética possa causar uma grande variedade de
problemas para o meio ambiente e para a saúde, os testes para provar sua
segurança são muito superficiais.
Experimentos conduzidos para testar a segurança ambiental são normalmente
de curta duração e realizados em pequena escala. Raramente eles duram mais
do que uma estação, enquanto os danos ambientais podem levar anos para
tornarem-se aparentes. Os testes nem sequer mostraram as consequências que
poderão acontecer quando estes organismos forem introduzidos na natureza
por não reproduzirem as condições reais do meio ambiente) reproduzem as
condições que as plantas terão quando forem cultivadas, uma vez
introduzidas no ambiente. O Professor John Beringer, presidente do British
Advisory Committee on Releases to the Environment admitiu que "nós não
podemos aprender nada de fato dos experimentos"
As medidas que tentam garantir a segurança dos alimentos transgênicos são
tão fracas quanto as que tratam dos riscos ambientais. No entanto,
autoridades que regulamentam este tipo de produto nos EUA, como o
Departamento de Agricultura Americano e a FDA, continuam a aprovar o uso e
a distribuição de produtos transgênicos. Na maioria dos casos, as decisões
foram baseadas nas evidências apresentadas pelas próprias empresas. No
Brasil, a CTN-Bio, órgão do governo que avalia a segurança dos alimentos
geneticamente modificados, adotou o mesmo procedimento para dar o parecer
positivo, em setembro de 1998, para variedades de soja da Monsanto. Na
União Européia, há um critério mais rigoroso. Em função da pressão dos
consumidores, a autorização para o plantio e comercialização para novos
organismos transgênicos está suspensa até que a legislação seja
reestruturada, porque esta não consegue assegurar padrões de segurança
para o meio ambiente e a saúde humana.
Nós estamos testemunhando um experimento global com a natureza e a
evolução, cujos resultados são impossíveis de se prever. Testes
inadequados e meios de controle regulatórios superficiais, que
potencializam os efeitos danosos dos cultivos e alimentos transgênicos,
talvez só sejam descobertos quando for tarde demais.
Quem ganha?
Dados os riscos associados à engenharia genética e a preocupação da
opinião pública em geral a respeito da segurança de alimentos transgênicos,
é difícil entender exatamente quem se beneficiará dos produtos desta
tecnologia. As multinacionais agroquímicas, - ou as "empresas de ciência
da vida" como elas se auto proclamam - que estão desenvolvendo e
promovendo a biotecnologia, levantaram uma série de argumentos a respeito
das vantagens a serem ganhas, mas poucas delas se sustentam.
Eles argumentam, por exemplo, que os cultivos transgênicos aumentam a
produtividade e que trarão benefícios, particularmente para pequenos
agricultores nos países em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, porém , estas
mesmas companhias - muitas das quais são enormes corporações químicas -
tem patenteado genes usados na produção de novos organismos.
Uma vez as patentes protegidas, as sementes só estarão disponíveis através
do pagamento de royalties anuais. Como resultado os produtores não poderão
mais guardar as melhores sementes para plantarem na estação seguinte,
abandonando uma longa tradição. Além disso, como já está ocorrendo nos
EUA, contratos legais estão forçando agricultores a usar a semente e o
herbicida produzidos pela mesma empresa.
As empresas de "ciências da vida" sabem que, atrás do controle sobre os
cultivos básicos plantados no mundo ( incluindo milho, arroz e trigo) e
patenteando suas sementes, há uma margem de lucro muito grande a ser
ganha. Se a corrente tendência de fusões continuar, um número pequeno de
empresas controlará quase toda a produção mundial de alimentos. Clamando a
posse destes genes, elas estarão gradualmente tomando conta da vida.
F I M